| Dona Isabel e Dom Pedro II |
Hoje na missa na Catedral de Petrópolis havia um quadro próximo ao altar. No correr da cerimônia, percebi tratar-se da Princesa Isabel e que entre as intenções da cerimônia, estavam as relativas a seu aniversário de morte. Após a missa, um pequeno grupo dirigiu-se ao mausoléu para orar.
Eu voltei para casa e fiquei pensando no que vi.
Quando eu estava na escola (concluí o então 2º grau em 1993), recordo de achar a história do Brasil muito aborrecida, parecia que nunca sucedia nada, tudo era apresentado como uma sequência muito natural de eventos, sem emoções nem paixões, como se os protagonistas daqueles eventos todos não fossem humanos.
Será que essa história chata era fruto de uma metodologia materialista, que via na história apenas o inevitável aflorar das consequências de mudanças nas estruturas de produção? Será que era culpa de meus professores, que talvez achassem que detalhes, por mais apaixonantes que fossem, não iriam agradar a um auditório adolescente? Seria resultado de alguma proposta de ensino da ditadura, dolosamente acrítica e adversária da reflexão?
Bem, talvez haja um pouco de verdade em todas essas hipóteses.
No entanto, o que me fez matutar mesmo foi a melancolia daquele instante fúnebre. A ausência distante daquela senhora morta, a presença de uns poucos parentes e amigos destes, que nunca a conheceram.
Eu conclui a formação média e passei pela faculdade de direito quase sem refletir sobre minha percepção insossa da história do Brasil. Salvo por um dia de corredor de faculdade, em que Gustavo Dias, em linguagem bastante imprópria, nos mandava ir além dos livros escolares.
E a história realmente estava bem ali, esperando. Encontrei com ela em Florianópolis, dentro e fora das salas de aula do mestrado. Não imaginava que o nome da cidade tivesse uma história tão amarga, lembrança indelével das ações de nosso segundo presidente, Floriano Peixoto, na antiga Nossa Senhora do Desterro. O título de Marechal de Ferro, a ele atribuído, começava a ganhar sentido, a viver fora da enfadonha lista de presidentes brasileiros.
Depois, quase sem querer, esbarrei em Dom Pedro II. Ainda era o menino que assumiu o trono antes do tempo, ou o velhinho medíocre que reinou por tanto tempo. Era ainda essa personagem que vi embarcar junto com a família, em tempo ruim, diabético, rumo ao exílio. A frase que o trouxe para mim não tinha qualidade como argumento, mas teve uma pungência que me atingiu: "os republicanos não trataram bem Dom Pedro".
Eu acredito que tenho uma solidariedade inata por velhinhos, sejam eles heróis ou vilões. Minha empatia também foi despertada por um velho general argentino, torturador na época da ditadura naquele país, conduzido a um tribunal aos 80 anos, para ser julgado por seus crimes.
Patético, desolado, desamparado, dizia o torturador octogenário de nada arrepender-se, de haver cumprido seu dever. Ele foi condenado pelos males indizíveis que causou à humanidade. Não sei que tipo de saciedade aquilo proporcionou à sede de justiça do mundo. A mim, deixou triste.
Eu fiquei triste por Dom Pedro também, olhei a doença, o fim da vida, a viagem. Não o trataram bem. O que aquilo queria dizer?
Depois o velhinho inepto foi sendo pintado com novas tintas e, junto com ele, a monarquia brasileira. Foram emergindo um homem e um regime que, em meio às imperfeições, tiveram suas virtudes.
E também foram surgindo perguntas: por que um monarquista, o Marechal Deodoro, proclamou a república? Por que anteciparam o golpe militar de 20 para 15 de novembro? Por que o referendo popular acertado entre os republicanos na noite do dia 15 de novembro, na casa de Deodoro, para consultar a população sobre a mudança de regime só foi realizado 104 anos depois, em 1993?
Dona Isabel, como a ouvi ser mencionada, morreu na França em 1921, um ano depois do Presidente Epitácio Pessoa haver revogado o decreto que condenava ao exílio a família real brasileira.
Penso que há muitas histórias emocionantes, algumas tristes, outras lamentáveis, algumas talvez que inspirem, para serem encontradas e pensadas na história brasileira.
Penso também que junto com essas histórias, convém pensar sobre as qualidades institucionais da monarquia brasileira e, ao invés de simplesmente lançá-la na vala dos regimes que pereceram, procurar resgatar as lições que ela pode oferecer ao Brasil que desejamos construir.
Muito bem escrito o seu artigo, Rodrigo, e muito humano. Parabéns! Exceto pela defesa da monarquia, que eu acho fora de propósito. Vou adicionar seu blog na lista do transparência maranhão. Um abraço!
ResponderExcluirConcordo contigo sobre a metodologia materialista da historiografia dos nossos livros da educação fundamental e média. Eu nunca vi uma estrutura histórica a caminhar na praia. Nunca vi um modo de produção fazer amor. Não estão vivos. Os seres humanos é que agem, amam e choram. A História é feita de homens, pessoas, não de conceitos abstratos e ideologicamente enviesados. Ou alguém vai duvidar que a história do século XX seria outra, se não tivesse existido um único homem, Adolf Hitler? Ou não estamos a mais de dois mil anos também a contar a história de um único homem?
ResponderExcluirMuito sensível (e realista), Raposo! Diria eu, uma visão apaixonada de nossa história! Mas também não concordei quanto a monarquia. De toda forma,também o colocarei na minha lista de blogs favoritos!
ResponderExcluirRodrigo, pelos comentários anteriores, verifiquei que teu artigo suscitou paixões ao registrar que o regime monarquista tem méritos. Todavia, “as qualidades institucionais da monarquia brasileira”, como dito por você, não foram apresentadas. Fica a sugestão para esclarecer o assunto em outro artigo, suscitando a discussão sobre o tema.
ResponderExcluirNo mais, achei o artigo interessante, porque promoveu reflexões sobre a minha postura diante da história do Brasil e me instigou a buscar mais informação sobre os fatos históricos relatados de maneira fria e distante nos livros escolares.
A metodologia usada nas escolas para promover o conhecimento da história no Brasil contribui sobremaneira para construir cidadãos apáticos politicamente, na medida em que as questões relativas à condução dos destinos da nação brasileira não compõem o interesse de grande parte da população.
Kacilda
Parabéns Rodrigo. Excelente texto.
ResponderExcluirMeu Caro Rodrigo!
ResponderExcluirO seu texto permite muitas abordagens interessantes. Vou procurar inserir aqui uma reflexão de algo que subjaz ao seu escrito.
A história no Brasil é realmente um incômodo, um mal-estar, e possívelmente - pelo menos para "certos fatos", conforme a cabeça de plantão - seria melhor que fosse "esquecida" - quem sabe em favor de uma "nova" história, "melhor", "mais rica", "virtuosa", "exemplar", que pudesse ser substituta do que "aí está e foi". É como se pudéssemos inserir algo difernte do que somos, fomos e fizemos no lugar do que somos, fomos e fizemos, para dar um melhor lustro às nossas origens e existência histórico-cultural.
Desta forma, a história do Brasil é um duplo equívoco: por parte dos que querem negá-la procurando colocar algo "melhor" ou o "silêncio" em seu lugar, e, por outro lado, dos que apreenderam a história brasileira como algo realmente insossa, sem graça, sem sentido etc., enfim, algo realmente pessimista e negativo. Entretanto, ambas razões tem um mesmo fundamento: exatamente aquilo que fundamentalmente negam, ou seja, a propria história em seu movimento inexorável e vivo, indepentemente se gostamos ou não dela, independente da forma como a valoramos.
Nos inserimos numa armadilha, meu caro Rodrigo, gostariamos de ser algo que nunca fomos e negamos a materialidade concreta do que sempre fomos, e assim ficamos perdidos em idealidades, esquecendo de nós mesmos em nossa concretude histórico-cultural.
O Brasil, parece, negando-se a si próprio, quer ser uma idealidade que nunca foi, mas, sem dúvida, quiçá alcançando esse intento, será, "em um dia", um exemplo civilizacional único na história da humanidade. Ele vai ser algo independemente do seu passado histórico; tudo indica que seu passado histórico vai ser, no máximo, "apenas" um acidente histórico, com fatos "devidamente selecionados" (no séc. XXI não podemos nos permitir ser ingênuos como outros povos forma no passado).
É justamente na história que se encontra a explicação porque somos assim; é na história que estão os fatos concretos materiais (ação e omissão) que explicam muitas das nossas opções e as nossas escolhas e covardias que resultou no estado de coisas concretas que vivenciamos em nosso país hoje; é na história, e não na negação dela, que poderemos racionalizar melhor o nosso futuro. Sabemos tudo da Europa, nada do Brasil e da América Latina! Somos como um cochorro que corre atrás do próprio rabo e nunca a alcança.
Em nossa cultura civilizacional o incômodo das idéias e da razão, a negação da história, a acomodação social, o ceticismo político etc., é uma construção histórico-cultural.
O papel mais importante da monarquia ocorreu com D.Pedro II, que abriu caminhos para que o Brasil se desenvolvesse, não cabia mais uma regencia fechada e mal administrada, assim como a Inglaterra de hoje já repensa a monarquia, com enfase nos aspectos de crescimento futuro e modernidade. A história é nosso berço, nossas memórias e principalmente uma reflexão sobre o nosso futuro.
ResponderExcluir