quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A construção de si e o cultivo das virtudes

Eu estava pensando sobre a vida e como vivê-la melhor e me vieram à mente algumas coisas que são importantes para a maneira como eu venho procurando me resolver como sujeito. Achei que valia compartilhar, então, aí vai.
Um ser humano para ter algo a oferecer aos outros tem que, antes de tudo, constituir-se subjetivamente. Nesse processo de construção ele tem de arar alguns campos essenciais: o espiritual, o intelectual, o físico, o emocional e o afetivo.
Esses campos pertencem a cada um e definem o que temos para partilhar, eles compõem o acervo de qualidades que permitirão que sejamos cônjuges, pais, amigos, cidadãos, profissionais.
Nas diversas esferas da vida nossa contribuição é dada a partir do que somos. Logo, o cuidado de si é fundamental, é condição necessária para o exercício da generosidade.
O cônjuge, o pai, o amigo, o cidadão, o profissional que não se cultiva, desperdiça seu potencial, é como o sujeito que deseja cultivar um jardim com a água de um poço raso. Vai faltar água.
E cultivar-se requer buscar alento espiritual, antes de tudo. Buscar resolver a grande questão da razão de ser e viver nesse mundo e de quais critérios de bondade escolher para vivenciar. Esta não é uma tarefa qualquer. Na verdade, é a tarefa que, embora sempre incompleta, define todas as outras. É ela que permite, por contraditório que pareça, que valores norteiem o processo da razão.
Cultivar-se também exige cuidar da mente, buscar expandir as possibilidades oferecidas pela razão, exercitar a dúvida com relação às respostas muito diretas, aos rótulos e estereótipos. O cuidado do intelecto é que permite superar as limitações das condições materiais de vida e nos acautela contra o embrutecimento a que a pobreza ou a riqueza materiais, sozinhas, podem nos conduzir.
O cuidado de si também exige o cuidado do corpo, pois a carne e os ossos são as ferramentas por meio das quais interagimos neste mundo. É uma questão de saúde, de beleza e de auto-respeito buscar nos limites de nossa própria pele a realização e a preservação dos potenciais, quaisquer que sejam eles, com os quais fomos dotados.
Cultivar-se é procurar lidar melhor com os próprios sentimentos, é desenvolver a capacidade de compreender um pouco melhor a si mesmo, o entusiasmo e a apatia, as simpatias e implicâncias. É procurar ver a si e aos outros com um olhar generoso e disposto a perdoar. Podemos e devemos exigir muito de nós mesmos e dos outros, mas precisamos ter a extrema capacidade de nos perdoar, e aos outros também, a cada tropeço para poder começar de novo e ir mais longe.
Cultivar-se, enfim é dispor-se a criar laços com as pessoas, cultivar relações. Um ser humano mais completo deve buscar outros seres humanos, para com eles partilhar experiências, essa disposição é que faz a riqueza da interação e permite desenvolver continuamente essas pontes com pessoas que nos ajudarão e serão ajudadas por nós a crescer em humanidade.
Encerro com uma consideração, existem muitas maneiras de buscar um sentido para a existência e todos elas, à sua maneira, tem valor. Horrível é a postura bovina de jogar a toalha e desistir de levar uma vida significativa, contentando-se em reduzir a vida a um mero ciclo fisiológico.
Boa sorte a todos em seus percursos!
Rodrigo.

PS. tenho de ressaltar que meu caminho de aperfeiçoamento como ser humano é buscar continuamente minha conversão como católico, por conta disso, associo a busca espiritual ao cultivo das virtudes teologais (, esperança e caridade) e as demais às virtudes cardeais, associando o cuidado da mente à prudência, o cuidado do corpo à temperança, o cuidado dos sentimentos à fortaleza e o cuidado da afetividade à justiça.

Para maior esclarecimento acerca da natureza de tais virtudes, sugiro:
CATHOLIC ENCYCLOPEDIA. Virtue. Disponível em: http://www.newadvent.org/cathen/15472a.htm. Acesso em 25 out. 2011.

sábado, 15 de outubro de 2011

A reinvenção do PSDB

João Gullino, aqui de Petrópolis, encaminhou um e-mail, de autoria de Neil Ferreira, comentando, entre outras coisas, acerca das divisões internas no PSDB, reproduzo o trecho inicial, seguido da resposta que enviei.

"O PSDB não é um partido, é um rachado; cabe inteiro numa kombi e os parcos passageiros, cacicada sem indiaiada, racharam entre si tão decisivamente que a kombi rachou junto. Essa expressão era atribuída ao bom humor carioca; as torcidas do Mengão e do Flu, que lotavam o Maracanã em cada Fla-Flu, diziam que  'a torcida inteira do Botafogo cabe numa kombi' e eles viviam num racha permanente e brigavam tanto entre si que 'a kombi rachou junto'." (Neil Ferreira)

"Acabo de ler, João. Eu, tucano que sou, espero que o partido consiga transformar as disputas internas em forças para disputar o poder. Acredito que o PSDB precisa se reinventar. O partido deve abrir-se para os cidadãos e para os militantes, pois ele hoje se apresenta muito oligárquico. Uma democracia partidária permitiria que os cidadãos filiados, não necessariamente interessados em disputar eleições, influenciassem de modo positivo a vida do partido, impondo padrões ideológicos e morais mais consistentes. É por isso que acredito muito na filiação de cidadãos que não tenham interesse imedato (ou mesmo qualquer interesse) em concorrer a eleições. Esses militantes são, a meu ver, grandes fiadores que um partido pode adquirir. A simples presença e proximidade desses cidadãos, participando, discutindo e assistindo às deliberações partidárias contribui para melhorar o nível político do partido.
Cordiais saudações, 
Rodrigo."

Tenho ainda um comentário a acrescentar ao e-mail: aqui em Petrópolis o PSDB parece caminhar nessa democrática direção, realizando quinzenalmente reuniões abertas à participação de filiados e não filiados, envolvendo nas discussões partidárias membros do diretório municipal, filiados, simpatizantes do partido e cidadãos em busca de diálogo político.
Considero esse movimento notável e acredito que sua continuidade e disseminação poderão ser a marca de um PSDB que, preservando seus melhores valores, avança e se aperfeiçoa, procurando envolver-se mais e mais com os cidadãos.

domingo, 2 de outubro de 2011

Filosofia Moral

Acabo de ler "Rumo à paz perpétua", de Kant. Que pensador vigoroso! A filosofia moral dele é espetacular e muito mais pé no chão do que eu havia compreendido 10 anos atrás, quando li o livro pela primeiro vez. Ainda há muita coisa que não compreendo, mas atribuo isso a um conhecimento muito limitado da obra do autor e também à qualidade da tradução.

Tem uma passagem (pág. B 93, da edições 70) em que ele fala que:
"Não há, pois, objectivamente (na teoria), nenhum conflito entre a moral e a política. Em contrapartida, subjectivamente (na inclinação egoísta dos homens que, por não estar fundada nas máximas da razão, não se deve ainda chamar prática), há e pode haver sempre esse conflito porque serve de pedra de afiar à virtude, cujo verdadeiro valor (segundo o princípio: tu ne cede malis sed contra audentior ito) não consiste tanto, no caso presente, em se opor com firme propósito aos males e sacrifícios que se devem aceitar, mas em olhar de frente o princípio mau que habita em nós mesmos e vencer a sua astúcia, princípio muito mais perigoso, enganador e traidor, capaz porém de raciocinar com subtileza e de aduzir a debilidade da natureza humana como justificação de toda a transgressão."

Da passagem, compreendi que:
Racionalmente, não existe oposição entre a moral e as nossas ações, mas que pela "inclinação egoísta dos homens" tal oposição se estabelece.
Essa inclinação egoísta não significa que o homem seja mal, mas que o primeiro impulso dele é sobreviver, e as exigências da sobrevivência não ditam ações corretas, ditam ações necessárias. Para ir além do necessário e chegar ao correto é que precisamos usar de nossa razão.

Diz ele ainda que a contradição entre a moral e as ações humanas pode permanecer para sempre, mas que isso serve de estímulo à virtude, "[...] cujo verdadeiro valor [...] não consiste só em aguentar firmemente os danos e sacrifícios [...], mas sim em conhecer e dominar o princípio nefasto que reside em nós", que nos leva a raciocinar de forma errada e a justificar "a violência e a ilegalidade com o pretexto das fraquezas humanas".
Ou seja:
1) resistir ao mal fora de nós é só uma parte da virtude, a outra (mais importante) é conhecer e resistir ao mal dentro de nós;
2) é errado tanto do ponto de vista da razão, como do ponto de vista da moral, fazer da fraqueza humana um pretexto para ceder à fraqueza humana.

Alguém poderia perguntar, onde é que está a parte "pé-no-chão" nessa filosofia toda? Eis minha interpretação:
A capacidade de discernir é incondicionada, já a possibilidade de agir de acordo com o discernimento é progressiva e depende de oportunidades. Que tal? O discernimento só depende de mim e da educação de meu espírito. Já a ação é limitada pelo contexto.
Disso resulta que nossa primeira obrigação é buscar diferenciar o certo do errado, a segunda é procurar agir de acordo com isso.

Abraços,
Rodrigo.