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domingo, 2 de outubro de 2011

Filosofia Moral

Acabo de ler "Rumo à paz perpétua", de Kant. Que pensador vigoroso! A filosofia moral dele é espetacular e muito mais pé no chão do que eu havia compreendido 10 anos atrás, quando li o livro pela primeiro vez. Ainda há muita coisa que não compreendo, mas atribuo isso a um conhecimento muito limitado da obra do autor e também à qualidade da tradução.

Tem uma passagem (pág. B 93, da edições 70) em que ele fala que:
"Não há, pois, objectivamente (na teoria), nenhum conflito entre a moral e a política. Em contrapartida, subjectivamente (na inclinação egoísta dos homens que, por não estar fundada nas máximas da razão, não se deve ainda chamar prática), há e pode haver sempre esse conflito porque serve de pedra de afiar à virtude, cujo verdadeiro valor (segundo o princípio: tu ne cede malis sed contra audentior ito) não consiste tanto, no caso presente, em se opor com firme propósito aos males e sacrifícios que se devem aceitar, mas em olhar de frente o princípio mau que habita em nós mesmos e vencer a sua astúcia, princípio muito mais perigoso, enganador e traidor, capaz porém de raciocinar com subtileza e de aduzir a debilidade da natureza humana como justificação de toda a transgressão."

Da passagem, compreendi que:
Racionalmente, não existe oposição entre a moral e as nossas ações, mas que pela "inclinação egoísta dos homens" tal oposição se estabelece.
Essa inclinação egoísta não significa que o homem seja mal, mas que o primeiro impulso dele é sobreviver, e as exigências da sobrevivência não ditam ações corretas, ditam ações necessárias. Para ir além do necessário e chegar ao correto é que precisamos usar de nossa razão.

Diz ele ainda que a contradição entre a moral e as ações humanas pode permanecer para sempre, mas que isso serve de estímulo à virtude, "[...] cujo verdadeiro valor [...] não consiste só em aguentar firmemente os danos e sacrifícios [...], mas sim em conhecer e dominar o princípio nefasto que reside em nós", que nos leva a raciocinar de forma errada e a justificar "a violência e a ilegalidade com o pretexto das fraquezas humanas".
Ou seja:
1) resistir ao mal fora de nós é só uma parte da virtude, a outra (mais importante) é conhecer e resistir ao mal dentro de nós;
2) é errado tanto do ponto de vista da razão, como do ponto de vista da moral, fazer da fraqueza humana um pretexto para ceder à fraqueza humana.

Alguém poderia perguntar, onde é que está a parte "pé-no-chão" nessa filosofia toda? Eis minha interpretação:
A capacidade de discernir é incondicionada, já a possibilidade de agir de acordo com o discernimento é progressiva e depende de oportunidades. Que tal? O discernimento só depende de mim e da educação de meu espírito. Já a ação é limitada pelo contexto.
Disso resulta que nossa primeira obrigação é buscar diferenciar o certo do errado, a segunda é procurar agir de acordo com isso.

Abraços,
Rodrigo.