Acabo de ler "Rumo à paz
perpétua", de Kant. Que pensador vigoroso! A filosofia moral dele é
espetacular e muito mais pé no chão do que eu havia compreendido 10 anos
atrás, quando li o livro pela primeiro vez. Ainda há muita coisa que
não compreendo, mas atribuo isso a um conhecimento muito limitado da
obra do autor e também à qualidade da tradução.
Tem uma passagem (pág. B 93, da edições 70) em que ele fala que:
"Não há, pois, objectivamente (na teoria), nenhum conflito entre a moral
e a política. Em contrapartida, subjectivamente (na inclinação egoísta
dos homens que, por não estar fundada nas máximas da razão, não se deve
ainda chamar prática), há e pode haver sempre esse conflito porque serve
de pedra de afiar à virtude, cujo verdadeiro valor (segundo o
princípio: tu ne cede malis sed contra audentior ito) não consiste
tanto, no caso presente, em se opor com firme propósito aos males e
sacrifícios que se devem aceitar, mas em olhar de frente o princípio mau
que habita em nós mesmos e vencer a sua astúcia, princípio muito mais
perigoso, enganador e traidor, capaz porém de raciocinar com subtileza e
de aduzir a debilidade da natureza humana como justificação de toda a
transgressão."
Da passagem, compreendi que:
Racionalmente, não existe
oposição entre a moral e as nossas ações, mas que pela "inclinação
egoísta dos homens" tal oposição se estabelece.
Essa inclinação egoísta não significa que o homem seja mal, mas que o
primeiro impulso dele é sobreviver, e as exigências da sobrevivência não
ditam ações corretas, ditam ações necessárias. Para ir além do
necessário e chegar ao correto é que precisamos usar de nossa razão.
Diz ele ainda que a contradição entre a moral e as ações humanas pode
permanecer para sempre, mas que isso serve de estímulo à virtude, "[...]
cujo verdadeiro valor [...] não consiste só em aguentar firmemente os
danos e sacrifícios [...], mas sim em conhecer e dominar o princípio
nefasto que reside em nós", que nos leva a raciocinar de forma errada e a
justificar "a violência e a ilegalidade com o pretexto das fraquezas
humanas".
Ou seja:
1) resistir ao mal fora de nós é só uma parte da virtude, a outra (mais importante) é conhecer e resistir ao mal dentro de nós;
2) é errado tanto do ponto de vista da razão, como do ponto de vista da
moral, fazer da fraqueza humana um pretexto para ceder à fraqueza
humana.
Alguém poderia perguntar, onde é que está a parte "pé-no-chão"
nessa filosofia toda? Eis minha interpretação:
A capacidade de discernir é
incondicionada, já a possibilidade de agir de acordo com o discernimento
é progressiva e depende de oportunidades. Que tal? O discernimento só
depende de mim e da educação de meu espírito. Já a ação é limitada pelo
contexto.
Disso resulta que nossa primeira obrigação é buscar diferenciar o certo do errado, a segunda é procurar agir de acordo com isso.
Abraços,
Rodrigo.
Gostei do site, Fox. Vai dar motivos para as nossas conversas.
ResponderExcluirBacana Mestre.
ResponderExcluirPorém, creio que o espírito acaba sendo influenciado pelo contexto e, consequentemente a educação (do espírito). Isto é, esse mal que reside dentro de nós é, inevitavelmente, influenciado pelo mal externo e vice-versa. E esse é o grande desafio humano: saber lidar com essa confusão, para então saber discernir o certo e o errado. Pelo menos é o que eu sinto. (influência do pensamento marxiano. rsrs)
Abraço querido.
Eu, evidentemente, não sou marxista.
ResponderExcluirParece-me que nessa rica construção faltou lugar pra reflexão ética. Explico-me (ou tento): se as circunstâncias explicam as condutas, que lugar sobra para os julgamentos morais? Eu só posso avaliar moralmente o comportamento de alguém se acreditar que esse alguém é livre para escolher sua conduta.
O materialismo atribui um papel muito limitado à razão e à ética e perdoa muita coisa em nome do pragmatismo político.
Dito isso, indago, é possível encontrar uma proposta ética em Marx para substituir a ética "burguesa"?
Ei, eu também não sou marxista! rsrs Só acho muito razoáveis e pragmáticas as construções de seus pensamentos (por isso eu usei o "marxiano"). Até pq ele (creio) foi o primeiro quem se deu o trabalho de pensar criticamente sobre a "real realidade", digamos assim, e com todo o contexto histórico que favoreceu pra isso.
ResponderExcluirEu não identifico nenhum ponto específico feito por Marx refente a ética, só uma crítica ferrenha à religião (pelo menos na pouca leitura que tenho). Mas quanto à razão eu discordo, até pq Marx fala numa razão diretamente influenciada pelo mundo externo, no qual o homem constrói sua consciência a partir do seu comportamento material... E ele faz aquela viagem construtiva toda. Na minha visão, Marx não constrói uma ética justamente porque pra ele o sistema de sociedade perfeito é o comunismo, e como me refiro a palavra "perfeita" no comunismo no qual o homem pode fazer e ser o que quiser sem atingir/explorar/ser explorado o/por outro não seria necessária uma ética, até pq esse "código de ética" existe justamente pra pôr freio nas ações que são inerentes a própria sociedade capitalista/burguesa visando manter uma certa ordem e consequentemente gerar o mínimo de conflitos possíveis e/ou resolvíveis. Logo, eu creio que, em uma sociedade onde o homem não pode ser livre pra fazer o que quer e fazer isso sem atingir o outro (o que hoje é praticamente impossível, quiça um dia), não pode se dizer que ele é livre para escolher sua conduta.
E Marx estava mais preocupado em querer mudar a questão real de "exploração do homem pelo homem" da época dele do que pensar sobre questões morais que tanto já se estavam dando o trabalho de pensar. Pelo menos é o que creio.
ei, foi mal os erros de portuga. rsrs.
ResponderExcluirValeu Rayssa! Foi esclarecedor.
ResponderExcluirA caminhada é longa, mas acho que demos um passo pra entender porque idealismo e materialismo influenciaram doutrinas políticas tão diferentes.
Retornando à minha posição:
Ética é importante. É o que define como devemos agir no mundo, embora sem sempre consigamos agir conforme devemos.
Outra questão. Enquanto não vem o comunismo, o que se faz com a ética burguesa?
Quando eu disse que ética não deve ser levada TÃO a sério assim, não quis dizer que ela não é importante. Ela é importante sim, objetivamente. Mas quando chega em um campo subjetivista, onde os conceitos morais variam(são relativos e diferentes a cada pessoa), aí já não se deve levar a sério, compreende? Discutir sim, mas tornar certas opiniões como sendo certas não me parece muito correto. Ao não ser que se entre em um acordo de opiniões.
ResponderExcluirAgora, o que fazer com a ética burguesa? hahahaha sinceramente eu tenho que rir pq eu não sei! rsrs Mas eu acho que a ética burguesa/capitalista tem melhorado, como se pode ver com a preocupação com o meio ambiente e etc. Eu realmente quero acreditar que certas atitudes não são só faixadas, mas tenho minhas dúvidas. rsrs. Eu só acho que a ética atual tá precisando fazer mais o que tem no papel do que ficar inventando mais coisa. Se pelo menos isso fosse feito, creio que seria menos desconfortável para todos. Mas, creio eu que a ética burguesa/capitalista nunca vai querer construir algo que vise, pelo menos, trazer um mínimo de desconforto possível, apesar ter muito potencial para isso. Eu não vejo (ideologicamente) o capitalismo como uma coisa tão ruim pra se (con)viver; o problema são as pessoas que o monopoliza. Sério, acredito que poderia ser um sistema MUITO melhor do que é hoje, mas uns com mais e outro com menos em proporções não tão absurdas como é.
Mas, nesse mundo louco, a gente se vê obrigado a primeiro fazer e depois pensar no que fez. Então, creio que para a ética burguesa atual o melhor que tem a fazer é tentar agir de tal forma que atinja aqueles fora de sua realidade sem que eles percebam ou que atinja de forma mínima.
Espero que eu tenha sido clara. E desculpa as confusões de ideias e erros. rsrs
E tu, o que achas?